Mercado de EnergiaCompetitividade

Sem preço competitivo de energia, Brasil perde oportunidades na crise atual

Ex-CEO da Petrobras, Pedro Parente vê país privilegiado diante de crise do petróleo, mas diz que transformar isso em ganho demanda mudanças estruturais

Por Letícia Arcoverde e Vanessa Adachi / Capital Reset••Rio de Janeiro
Sem preço competitivo de energia, Brasil perde oportunidades na crise atual
Mercado de Energia · Rio Energy Forum

Entrevista de Letícia Arcoverde e Vanessa Adachi, do Capital Reset (UOL), publicada em 2 de outubro de 2026 — republicada no caderno Energia em Debate do RIO ENERGY FORUM 2027.

Tem ganhado tração a tese de que, num mundo conflagrado por conflitos que ameaçam a segurança energética de países, o Brasil tem potencial para atrair investimentos pela sua estabilidade geopolítica e matriz elétrica majoritariamente limpa.

Ex-presidente da Petrobras, Pedro Parente, que hoje é conselheiro de empresas, adota uma visão cautelosa, de que esse benefício não será colhido facilmente. Para que receba mais investimentos e entre na corrida do chamado powershoring para valer, o país precisa corrigir distorções do setor elétrico, onde a geração é barata, mas o insumo é encarecido por uma série de encargos.

“O Brasil tem a geração barata, mas o custo da energia é caro, porque tem uma série de subsídios embutidos que são absurdos”, diz Parente em entrevista ao Reset. “Enquanto não tiver preço competitivo de energia, não tem como instalar indústrias novas aqui.”

Parente passou pelos governos de José Sarney, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. No último, foi ministro-chefe da Casa Civil e coordenou a resposta à crise do apagão em 2002.

Sem querer arriscar prognósticos sobre a crise do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio, Parente enxerga um cenário de curto prazo em que a produção de combustíveis fósseis se expande — como já ocorre no Brasil, que vem batendo recordes de extração de óleo e gás — enquanto energias alternativas só ganham espaço no médio e longo prazo.

Nesse cenário, o Brasil é privilegiado pela sua matriz elétrica e frota de veículos flex — ao ponto de preocupações com a segurança energética ainda não terem chegado aos conselhos de empresas. “As empresas deveriam estar mapeando essas oportunidades agora”, diz Parente.

Como o senhor vê o cenário global de energia pós-Ormuz? Já se pode falar de uma mudança na matriz energética global e na geografia do fornecimento de energia no mundo?

Eu não tenho dúvida disso. A questão é que ninguém sabe para onde vai. Não é mais só o Estreito de Ormuz — a Arábia Saudita teve um dos seus principais oleodutos e suas principais instalações de exportação bombardeadas. O maior país exportador do mundo está com uma grande parte da sua capacidade de exportação prejudicada.

Podemos estar diante de um quadro de escassez dramático e prolongado, que não é comparável com nenhum outro momento.

O Brasil nesse sentido está numa situação espetacular, por exportar petróleo livre de qualquer problema de geopolítica. O Brasil tem petróleo, alimento, e a gente não depende das rotas marítimas que estão sob esse tiroteio cerrado.

Países estão começando a buscar fontes locais para garantir alternativas de energia. O senhor vê a volta de fósseis e um retrocesso em transição energética, ou uma aceleração dela?

Qualquer uma das fontes alternativas leva tempo. A nuclear se coloca de uma maneira muito favorável, porque ela pode ser instalada próxima da carga. Mas vai levar tempo. O carvão vai voltar — a gente vai ver a volta de fósseis.

No médio prazo pode acelerar a transição energética. Mas no curto prazo, não. Porque para acelerar a transição energética, quais serão as fontes? Se fala muito do hidrogênio, mas a gente ainda tem poucas iniciativas concretas, poucas iniciativas que tenham dimensão.

Por outro lado, com essa questão do petróleo, nós estamos falando de redução de consumo de combustível. Mas mesmo com a eletrificação de carros, como é que você gera eletricidade? O carro elétrico nos Estados Unidos e na Europa é abastecido pelo quê? Mesmo na China, ainda não dá para dizer que é energia limpa que está abastecendo.

Nesse cenário super incerto, como o senhor vê a posição do Brasil, em termos de autossuficiência mas também como um provedor de energia para o mundo?

No Brasil a gente tem carros flex, então você não precisa converter frota para usar o etanol. Sob o ponto de vista de nos suprir de uma eventual falta, a gente está numa situação muito boa, mas não para ser um contribuinte forte para ir além daquilo que já está sendo feito agora.

O que a gente pode aumentar rapidamente? Exportação de petróleo. Já somos um dos maiores exportadores do mundo, e temos data marcada para começar a diminuir. Esperamos que a Margem Equatorial possa substituir a produção do pré-sal, mas também não é uma coisa que se aumenta rapidamente.

Você pode aumentar a produção de etanol de milho, mas também não é imediatamente. A gente tem muito potencial de energia renovável, eólica e solar — que, no entanto, dependem de fontes complementares para regular ou para estabilizar o abastecimento.

Imediatamente, até cinco anos, eu acho difícil equacionar isso. A partir dos cinco anos, aí pode-se começar a ver resultados, [do Brasil] como supridor de energia à prova de instabilidade e riscos geopolíticos. Mas nada disso será suficiente para essa perda toda que a gente está assistindo agora.

Pensando em indústrias intensivas de energia que em muitos lugares do mundo não vão ter essa energia disponível, faz sentido a tese de que o Brasil poderia ser um beneficiário, apostando no powershoring?

Faz sentido, desde que você se prepare para isso. Vai precisar ter uma geração adicional de energia, que aí sim, pode vir do aumento da geração eólica e solar, mas sempre lembrando da necessidade de complementaridade.

A gente, de fato, poderia atrair muitas indústrias, desde que a gente racionalize essa questão da energia. O Brasil tem a geração barata, mas o custo da energia é caro, porque tem uma série de subsídios embutidos que são absurdos. Essa distorção é suficiente para tornar não competitivo.

No Brasil, a gente cria uma distorção e quando quer corrigir a distorção ao invés fazer isso eliminando a distorção, a gente cria outra para consertar a anterior.

Qual um exemplo de subsídio que precisa ser desmontado?

Os subsídios à geração distribuída. Fez sentido durante algum tempo, mas agora não faz mais sentido. Isso causa uma enorme preocupação para o Operador Nacional do Sistema (ONS). Mas aí tem razões políticas, é comandado por uma lógica que não é a lógica da racionalidade. Existem outros custos da energia que não têm nada a ver com a energia — são fundos para isso, fundos para aquilo.

Sobre a tese do powershoring, enquanto você não tiver preço competitivo de energia, não tem como instalar indústrias novas aqui. O que é possível é dizer que para as novas indústrias vamos cortar isso. Aí, cadê a competitividade da indústria que está aqui? Vai para o buraco.

Como as empresas estão olhando para o tema da segurança energética hoje? Ele está aparecendo nos conselhos?

Nos conselhos em que eu estou, ainda não apareceu. Porque à exceção do preço da gasolina, você não vê impacto no custo de energia. Você tem uma energia cara, mas ela não está aumentando por força disso que a gente está assistindo [no Oriente Médio].

Nesse sentido, o país é privilegiado, porque tem dimensões continentais, ainda tem um sistema fortemente baseado em hidroelétrica, tem etanol e uma frota flex, e o governo está subsidiando a gasolina. Isso já está estourando no problema fiscal, mas essa é outra questão.

Mas deveria aparecer mais dentro das empresas, ao pensar no médio e longo prazos?

Acho que as empresas teriam que estar olhando sob o ponto de vista de oportunidade. Não consigo ver a gente tendo um problema de oferta de energia. A gente pode ter um problema maior ainda de custo da energia, caso os impactos no preço do petróleo sejam o que parecem que vão ser.

Agora, pela possibilidade de ter energia como em nenhum outro país, a gente deveria estar pensando nas oportunidades. Para fazer isso, tem que tirar as distorções. As empresas deveriam estar mapeando essas oportunidades agora, só que a gente tem questões de curto prazo que estão demandando maior atenção das empresas — como endividamento das famílias, a taxa de juros.


Fonte: Capital Reset / UOL

Rio Energy Forum · Caderno Editorial