McKinsey alerta para desafios da expansão da demanda por energia e aponta necessidade de novas estratégias
Relatório Global Energy Perspective 2026 destaca o avanço da IA, os gargalos da infraestrutura elétrica e os riscos geopolíticos para o planejamento até 2050

Reportagem da Redação do ESG Inside, publicada em 2 de outubro de 2026 — republicada no caderno Energia em Debate do RIO ENERGY FORUM 2027.
O crescimento da demanda global por energia está impondo novos desafios ao setor elétrico. A expansão da inteligência artificial (IA), a construção de data centers, a eletrificação da economia e o avanço industrial dos mercados emergentes estão aumentando a necessidade de geração e infraestrutura. Ao mesmo tempo, as tensões geopolíticas, as restrições nas cadeias de suprimentos e a pressão por tarifas acessíveis estão tornando mais complexas as decisões de investimento.
Esse cenário exige uma revisão das estratégias de planejamento energético, tradicionalmente orientadas por projeções de demanda e metas de descarbonização. Agora, garantir o fornecimento de energia a preços competitivos, assegurar a resiliência das redes e reduzir a dependência de fornecedores concentrados geograficamente são fatores igualmente importantes.
Essa é uma das principais conclusões do relatório Global Energy Perspective 2026, da McKinsey & Company, que apresenta cinco cenários para a evolução do sistema energético mundial até 2050. O estudo destaca que a transição energética está assumindo características de uma expansão energética, na qual fontes fósseis e renováveis continuam crescendo simultaneamente para atender à demanda.
Em 2025, a demanda global por energia aumentou 2,7%, com expansão do consumo de petróleo, gás natural, carvão e energias renováveis. A tendência de crescimento deve permanecer nas próximas décadas, embora a composição da matriz energética dependa de fatores como o desempenho econômico, a evolução tecnológica, as políticas públicas e a disponibilidade de infraestrutura.
Para a McKinsey, o desafio estratégico deixou de ser simplesmente identificar qual tecnologia será predominante no futuro. A questão central passou a ser como garantir que o sistema energético consiga acompanhar o crescimento da demanda, mantendo a confiabilidade do fornecimento e a sustentabilidade econômica dos investimentos.
Inteligência artificial aumenta a pressão sobre a infraestrutura elétrica
A expansão da inteligência artificial representa uma das principais mudanças nas perspectivas de consumo de eletricidade. O crescimento dos modelos de IA generativa, das aplicações empresariais e dos serviços em nuvem está impulsionando a construção de data centers, instalações que exigem grandes volumes de energia e disponibilidade contínua de eletricidade.
Segundo a McKinsey, os data centers são o segmento de consumo de eletricidade que mais cresce nos mercados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No cenário de referência Continued Momentum, a demanda de eletricidade dessas instalações deverá crescer a uma taxa anual composta de 24% até 2030.
A partir daí, entretanto, as perspectivas tornam-se mais incertas. A consultoria projeta uma desaceleração do crescimento para aproximadamente 5% ao ano entre 2030 e 2040, considerando a manutenção da intensidade energética atual da computação. A evolução da eficiência dos chips, dos modelos de IA e da utilização dos recursos computacionais poderá alterar significativamente essas projeções.
O retorno econômico dos investimentos em inteligência artificial também representa uma variável importante. Caso a adoção da tecnologia avance mais rapidamente do que o esperado, a demanda por eletricidade poderá superar as projeções atuais. Por outro lado, ganhos de eficiência na computação poderão reduzir o consumo de energia por unidade de processamento.
A IA também poderá contribuir para melhorar a eficiência do próprio setor energético. Aplicações de inteligência artificial já são utilizadas para aprimorar previsões de demanda, otimizar a distribuição de eletricidade, realizar manutenção preditiva de equipamentos e acelerar o desenvolvimento de projetos de infraestrutura.
Dessa forma, a tecnologia atua simultaneamente como fator de crescimento da demanda e como instrumento para reduzir custos operacionais e aumentar a produtividade do sistema.
A consultoria considera que a questão estratégica não será apenas determinar quanta energia a IA consumirá, mas identificar onde será possível instalar e operar data centers diante das limitações de conexão à rede, disponibilidade de energia firme, água, terrenos e licenciamento.
Redes elétricas tornam-se o principal gargalo da expansão
A disponibilidade de infraestrutura é um dos principais obstáculos à expansão do fornecimento de eletricidade. Mesmo com a redução dos custos de geração de fontes renováveis, a falta de linhas de transmissão, capacidade de armazenamento e sistemas de conexão pode impedir que a energia chegue aos consumidores.
A McKinsey identifica a infraestrutura elétrica como a restrição mais recorrente nos cenários analisados. Atrasos na construção de redes podem comprometer a eletrificação da economia, independentemente da competitividade econômica das fontes de geração.
O problema é agravado pelos longos prazos necessários para desenvolver novos projetos. A construção de infraestrutura de transmissão pode levar de cinco a 15 anos, considerando planejamento, licenciamento e execução. A aquisição de equipamentos críticos, como cabos e grandes transformadores, pode exigir de dois a quatro anos.
Esses prazos contrastam com a velocidade de expansão dos data centers e de outras instalações que demandam grandes volumes de eletricidade. A falta de coordenação entre a expansão da geração e a infraestrutura de transmissão pode resultar em projetos de energia disponíveis, mas sem condições de entregar eletricidade aos consumidores.
A crescente participação das fontes renováveis variáveis também aumenta a complexidade operacional. Com maior presença de energia solar e eólica, os operadores precisam equilibrar continuamente a oferta e a demanda, administrando oscilações de geração em intervalos cada vez menores.
Nesse contexto, armazenamento de energia, capacidade de geração despachável, flexibilidade da demanda e digitalização das redes passam a desempenhar funções fundamentais para garantir a estabilidade do sistema.
A expansão da infraestrutura também exigirá maior coordenação entre governos, concessionárias, investidores, fabricantes de equipamentos e empresas consumidoras de energia.
Energia mais barata não significa necessariamente eletricidade mais acessível
Outro desafio identificado pela McKinsey é a diferença entre o custo de geração e o custo total do sistema elétrico.
A redução dos custos de geração solar e eólica tornou essas tecnologias competitivas em diversos mercados. Entretanto, a expansão dessas fontes exige investimentos adicionais em transmissão, distribuição, armazenamento e capacidade de geração complementar.
O relatório estima que os investimentos globais anuais em transmissão e distribuição deverão aumentar de US$ 443 bilhões, em 2025, para US$ 970 bilhões em 2050, uma expansão média de 3,2% ao ano.
A transmissão deverá concentrar uma parcela crescente desses investimentos, com crescimento anual projetado de 4,2%, enquanto a distribuição deverá avançar 1,1% ao ano.
Esse aumento dos investimentos em infraestrutura poderá compensar parcialmente a redução dos custos de geração, elevando o custo total do sistema elétrico.
A questão da acessibilidade energética, portanto, precisa ser analisada de maneira integrada, considerando não apenas o preço da eletricidade produzida, mas também os custos de conexão, transmissão, armazenamento, flexibilidade e confiabilidade.
O impacto sobre consumidores e empresas dependerá das características de cada mercado, da composição da matriz energética e das decisões regulatórias sobre a distribuição dos custos entre tarifas, impostos e recursos públicos.
Nos países desenvolvidos, o principal desafio será definir como financiar a expansão da infraestrutura sem comprometer a competitividade industrial ou transferir custos excessivos para os consumidores.
Já nos mercados emergentes, a questão central será ampliar a capacidade de geração e distribuição sem restringir o acesso à eletricidade, a industrialização e o crescimento econômico.
O Brasil está entre os países do G20 nos quais os custos do sistema elétrico poderão crescer mais rapidamente do que o PIB até 2050, segundo as projeções da consultoria. Nesse contexto, o financiamento da expansão da infraestrutura e a definição de mecanismos de recuperação dos investimentos serão questões importantes para a competitividade do setor.
Geopolítica amplia os riscos das cadeias de suprimentos
A segurança energética também está assumindo uma dimensão mais ampla. Tradicionalmente associada à disponibilidade de petróleo, gás natural e carvão, ela agora envolve a capacidade de acesso a equipamentos, minerais críticos, semicondutores e tecnologias necessárias à expansão das redes elétricas.
A concentração da produção de componentes estratégicos em poucos países cria vulnerabilidades para os mercados que dependem da importação desses produtos.
A China, por exemplo, responde por aproximadamente 80% da produção mundial de módulos solares e 75% da capacidade global de fabricação de células de baterias. O país também concentra mais de 70% do processamento de lítio, cobalto, grafite e terras raras.
Uma eventual fragmentação geopolítica poderá elevar os custos de equipamentos e comprometer a disponibilidade de tecnologias essenciais à transição energética.
No cenário Fragmented Energy Order, a McKinsey estima que a reconstrução de cadeias de suprimentos concentradas fora da China poderia elevar os investimentos necessários em energia solar entre 20% e 25% e os custos de capital de sistemas de armazenamento em baterias entre 40% e 50% nos Estados Unidos e na União Europeia.
As restrições comerciais também poderão aumentar os custos dos combustíveis, devido a rotas de transporte mais longas, seguros mais caros e menor flexibilidade nas negociações internacionais.
Além disso, a crescente digitalização do setor energético amplia a exposição a riscos cibernéticos. Ataques coordenados contra operadores de redes, subestações, terminais de gás e sistemas de controle poderiam comprometer simultaneamente diferentes partes da infraestrutura.
O relatório destaca, assim, que a segurança energética precisa ser tratada como uma questão de arquitetura do sistema. Isso significa identificar dependências críticas em fornecedores, tecnologias, rotas comerciais e infraestrutura digital, além de desenvolver mecanismos de redundância e continuidade operacional.
Cinco cenários para o futuro da energia até 2050
Para lidar com a crescente incerteza, a McKinsey ampliou seu modelo de planejamento e apresenta cinco cenários que exploram diferentes combinações de crescimento econômico, demanda energética, disponibilidade de tecnologias e condições geopolíticas.
O cenário Continued Momentum funciona como referência e considera a continuidade das tendências atuais. Os demais exploram diferentes possibilidades para o desenvolvimento do sistema energético.
Hydrocarbon Resilience: considera um mundo de crescimento elevado da demanda, no qual os combustíveis fósseis continuam desempenhando um papel importante. Nesse cenário, a demanda global por petróleo poderá chegar a quase 130 milhões de barris por dia em 2035, aproximadamente 30% acima dos níveis atuais.
Fragmented Energy Order: descreve um ambiente de fragmentação geopolítica, com menor crescimento econômico, restrições comerciais e dificuldades para expandir as cadeias globais de suprimentos. O cenário representa o limite inferior das projeções de consumo energético da análise.
All of the Above Energy: considera um cenário de forte crescimento da demanda, atendido pela expansão simultânea de fontes convencionais e de baixo carbono. A prioridade é ampliar a disponibilidade de recursos para garantir o fornecimento confiável de eletricidade.
Decarbonization Delivers: explora um cenário de aceleração da descarbonização, com ganhos de eficiência, redução dos custos das tecnologias limpas e expansão da infraestrutura. A energia nuclear ganha importância como fonte de geração firme e de baixo carbono.
Nesse último cenário, a adição líquida média anual de capacidade nuclear poderá aumentar de 18 gigawatts para 40 gigawatts até 2050, mais que o dobro da expansão observada na projeção de referência.
A McKinsey ressalta que esses cenários não recebem probabilidades individuais. Seu objetivo é explorar diferentes combinações de fatores que poderão determinar a evolução do sistema energético, e não estabelecer uma previsão única sobre qual futuro necessariamente se concretizará.
Planejamento exige flexibilidade para diferentes cenários
A amplitude dos cenários apresentados pela McKinsey evidencia a dificuldade de estabelecer estratégias energéticas baseadas em uma única previsão de longo prazo.
O crescimento da demanda, a evolução da IA, os custos das tecnologias, as condições geopolíticas e a velocidade de implantação da infraestrutura podem alterar significativamente as perspectivas do setor.
Para os executivos, o desafio consiste em transformar o planejamento de cenários em decisões concretas de investimento, identificando quais iniciativas devem ser priorizadas, quais opções precisam ser preservadas e quais indicadores podem justificar mudanças de estratégia.
A consultoria recomenda que as empresas monitorem sinais críticos do mercado e avaliem continuamente a exposição de seus negócios a diferentes condições de oferta e demanda.
Entre as questões que precisam ser consideradas estão a capacidade de realocar capital, a flexibilidade para rever projetos, a disponibilidade de fornecedores alternativos e a agilidade para responder a mudanças nas condições de mercado.
A gestão da continuidade dos negócios também precisa deixar de ser uma responsabilidade isolada das áreas de operações e risco. Finanças, estratégia, tecnologia da informação e operações devem participar conjuntamente da preparação para possíveis interrupções.
A colaboração entre empresas e parceiros do ecossistema poderá contribuir para reduzir vulnerabilidades, por meio de compras compartilhadas, otimização de recursos e iniciativas de gestão da demanda.
Outro aspecto importante é a necessidade de transformar as respostas a crises em mudanças estruturais. A experiência com a pandemia de Covid-19, a guerra entre Rússia e Ucrânia e as interrupções no fornecimento de energia demonstra a importância de incorporar as lições desses eventos às estratégias de longo prazo.
Transição energética exige decisões em um ambiente de incerteza
A análise da McKinsey aponta que o setor energético está entrando em uma fase na qual crescimento da demanda, segurança do fornecimento e acessibilidade econômica precisam ser considerados simultaneamente.
A expansão da inteligência artificial e dos data centers adiciona uma nova dimensão à necessidade de eletricidade, enquanto a infraestrutura existente enfrenta limitações para acompanhar a velocidade das mudanças.
Ao mesmo tempo, a dependência de cadeias de suprimentos concentradas e a possibilidade de novas crises geopolíticas aumentam os riscos associados aos investimentos de longo prazo.
A descarbonização permanece um desafio relevante. Entretanto, o relatório observa que todos os cenários analisados apontam para um distanciamento da trajetória de aquecimento de 1,5°C prevista no Acordo de Paris. Mesmo o cenário Decarbonization Delivers, que considera uma aceleração expressiva da transição energética, não alcançaria essa meta.
Para a consultoria, o planejamento estratégico precisa considerar a possibilidade de diferentes futuros, sem que a análise de cenários se transforme em um obstáculo à tomada de decisões.
O imperativo para empresas e investidores é desenvolver estratégias capazes de preservar oportunidades e reduzir vulnerabilidades, acompanhando os indicadores que possam exigir mudanças de rumo.
Mais do que apostar em uma única trajetória para o setor energético, o desafio será construir organizações preparadas para operar em um ambiente de expansão da demanda, transformações tecnológicas e incertezas econômicas e geopolíticas.
Fonte: ESG Inside
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