China salva o Mundo da Crise de Energia
Poder chinês de segurar os preços do petróleo e a transição para energia limpa redesenham o tabuleiro global — de Pequim a Havana

Coluna de Nelson de Sá, colunista do UOL — republicada no caderno Energia em Debate do RIO ENERGY FORUM 2027.
Órgãos ocidentais estão temerosos ou prostrados diante do poder chinês de segurar os preços do petróleo, passados quase seis meses do início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Um indiano se pergunta se a China salvou o mundo, Índia inclusive.
Dias depois dos primeiros ataques, o Yuyuan Tan Tian, perfil ligado ao governo em diversas plataformas chinesas, já adiantava que o país se voltaria para produtores emergentes, do Brasil à África. E enfatizava a transição avançada para energia limpa, "especialmente no campo industrial, que determina a segurança nacional". Relatórios nos últimos dois meses, do banco JP Morgan ao banco central europeu, confirmam as bases da resposta chinesa à guerra.
Em conversas informais com analistas latino-americanos em Pequim, nos últimos dias, a questão agora é se a China está repetindo o feito em Cuba, cujo bloqueio de sete décadas se estendeu em janeiro deste ano ao petróleo. A ilha chega ao centenário de Fidel Castro, nesta quinta, tendo trocado em sete meses os velhos carros americanos a gasolina por triciclos elétricos chineses, segundo relatos.
O primeiro parque solar foi entregue pelos chineses no início do ano passado — e agora a ilha soma cerca de 60. Foram enviadas unidades de armazenamento de energia, para a rede, e sistemas solares para comércio e residências, inclusive no interior. Vietnã e Espanha também estariam ajudando. O Brasil, não.
Ao receber Liu Haixing, chefe do Departamento Internacional do Partido Comunista da China, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, agradeceu "o apoio ao programa de transição para fontes renováveis" em meio ao "bloqueio energético criminoso" dos EUA. Liu está em Havana como enviado do presidente Xi Jinping, com uma carta ao irmão de Fidel, Raúl Castro, e a Díaz-Canel.
Marco Rubio, pelos EUA, reage à resistência e ao centenário elevando o volume das ameaças. Soltou vídeo vociferante contra Cuba e deu entrevista dizendo que a ilha não tem como escapar. Mas admitiu que os resultados estão demorando, insistindo que a pressão "não vai desaparecer nos próximos dois anos, com certeza". É o que resta de mandato.
Turistas de volta
Demorou seis anos, mas no primeiro semestre de 2026 o turismo estrangeiro na China superou finalmente os níveis pré-pandemia, "o que é bastante significativo", na avaliação da Bloomberg.
A proporção de visitas saltou 20%, mas o que chamou a atenção da agência oficial Xinhua foram os 18 milhões de turistas entrando com isenção de visto: 17,8 milhões, salto de 30,6% em relação ao mesmo período do ano passado. A agência destacou europeus, que concentram a política chinesa para isentar vistos, abrangendo mais de 30 países da região. Acrescentou que o turismo chinês na Europa também vem crescendo.
Sobre o autor
Nelson de Sá está na Ásia há dois anos e meio. Foi correspondente em Pequim e Taiwan, pela Folha. Antes, foi colunista de mídia internacional, correspondente em Nova York e editor de cultura. Em teatro, foi cotradutor e assistente de Zé Celso em 'Ham-let' e 'As Boas', além de dirigir '4.48 Psicose' e um vídeo da peça chinesa 'Hai Rui Demitido do Cargo'. Fez as introduções biográficas e editou as coletâneas 'Diário da Corte' e 'A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo', de Paulo Francis.
Fonte: UOL — Coluna Nelson de Sá
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